quarta-feira , 26 setembro 2018
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Sempre ouvimos dizer, desde a infância, que educação vem de berço…

Sempre ouvimos dizer, desde a infância, que educação vem de berço. Talvez esta máxima, repetida a todas as gerações pelos sábios mais antigos tenha perdido sua essência. Preserva-se a muito custo o berço, mas a cada dia extingue-se a educação que transforma.
Ceder o lugar a alguém mais velho, abrir gentilmente a porta do carro para alguém impossibilitado de fazê-lo, dizer obrigado por algum favor, silenciar-se quando alguém fala, tomar a bênção dos pais pela manhã e ao dormir, tudo isso são valores em desuso porque não se sabe mais o que é berço, origem, educação de casa.
Vejo instituições deseducando dia após dia. Não preciso nem dizer que a família é, sem sombra de dúvidas, a principal delas. Formadas à força, e, muitas vezes por conveniência, não têm a devida maturação que é necessária para sustentar uma vida a dois, a três, a cinco…
Falam-se dos novos modelos de famílias que existem: pai solteiro, mãe solteira, tio, avô, avó,irmão mais velho. E que isto poderia ser um agravante. Não acredito. Família é família, não existe modelo pré-estabelecido. Família é quem ama, quem cuida, quem abraça.
Há pais que dão aos filhos tudo o que querem, no intuito de compensar ausências prolongadas ou carinhos esquecidos, criando verdadeiros mercenários. Qualquer favor vale um real, qualquer atitude tem um valor financeiro. Tudo é medido em cifras: melhor sapato, blusa mais cara, tênis de marca, calça da moda. Crianças aprendem, desde pequenas, a exibir suas posses e a se sobrepor a quem tem menos, gerando preconceitos sociais, aumentando os índices de violência e de segregação das classes.
A questão da fé, tão defendida por tantos estudiosos, nasce na família. Somos de uma geração que se ajoelhava na beira da cama , de mãos postas e orávamos ao Papai do Céu pedindo proteção. Não havia tantos filhos envolvidos com drogas e outras violências como hoje. Éramos mais orantes.
Içami Tiba, o grande educador do nosso século, disse, num de seus livros, uma frase que resume muito bem a importância da religião na vida de qualquer criança ou adolescente: “Os responsáveis que levam seus filhos à igreja, jamais os buscarão na cadeia.”
A bíblia diz que se conhece a árvore pelos frutos que dá. Podemos também conhecer os frutos pela árvore que os produzem. Filhos educados, famílias educadas e assim por diante…
Crianças de pouco mais de cinco anos chegam à escola falando alto com os professores, desobedecendo normas simples, agredindo física e verbalmente colegas e as autoridades as quais deveriam respeitar. Assim sendo, torna-se perceptível a ausência da educação de berço. Não aprenderam noções de limites, de hierarquia, de valores essenciais ao convívio social.
O fato de um professor falar dez, vinte, trinta vezes a mesma coisa com uma criança desobediente, reflete a falta de autoridade dos pais em casa. Pais que perdem a voz para pôr um filho na linha, precisam assumir o verdadeiro e primordial papel de educadores.
Crianças e adolescentes, seres em formação, devem estar preparados para fazerem boas escolhas para não se embrenharem por caminhos que levarão à dor, à degradação e à morte. Ninguém deseja isso. Nenhum pai ou mãe ou responsável deseja que seus protegidos façam crescer as estatísticas do descaminho, da perdição e do sofrimento.
Filhos tratam os pais como seus iguais. Senhor, senhora? Não! “Você” e olhe lá! Não dá para entender tal atitude. Filho é filho, pai é pai. É necessário que haja essa diferença senão os valores se misturam também e ninguém vai saber quem é quem. Os filhos perdem as referências. Todos nós precisamos de modelos. Se dentro de casa não há modelos, procuram-se referenciais nas ruas, nas boates, nos campos de futebol, no mundo das celebridades, das drogas, da prostituição, no grupo de amigos (quem garante?) e até no lamaçal que envolve a política de nosso país.
As famílias precisam repensar suas ações e voltar um pouco à “moda antiga”, não no sentido de serem antiquadas , caretas ou fora de moda. Mas no sentido de resgatar valores que são importantes e que fazem falta. As crianças, os jovens, os seres humanos em geral, estão sendo criados com lacunas em sua formação. Há abismos enormes na educação de nossas crianças que só a família, pela sua origem divina, pode recuperar.

Meus pais acostumaram-me desde pequenos ( e meus avós também!) a tomar a bênção pela manhã e à noite, ao dormir. Ouvir meus pais e meus avós me dizendo: “Deus abençoe, meu filho!” era como firmar um contrato direto com o céu, sacramentando o valor infinito de Deus na minha vida e de sua presença no meio de nós. Devemos perpetuar gestos assim.
Educação vem de berço. Vem do colo, aliás, vem de muito antes. Vem do útero quando preparado, responsável e com amor acima de tudo.
Um ser humano precisa ser guiado na fé, no amor, na compreensão do outro para não se tornar leviano como a maioria. Para não achar que o outro é uma peça descartável como a peça de um brinquedo. Aliás, o brinquedo ainda tem uma vantagem. Há peças de reposição. Ser humano não. Uma vez perdido, para sempre perdido.
O desrespeito às diferenças começa em casa. A maioria dos pais, muitas vezes, têm atitudes que só reforçam o preconceito. No berço, a primeira escolha são as cores rosa e azul. Rosa para as meninas e azul para os meninos. Por que essa distinção? As cores foram feitas para todos. Quem criou este código não verbal para identificar quem é homem ou mulher? Bonecas para meninas, carrinhos para os meninos. Há alguma explicação lógica para isso? Dizem que os brinquedos incentivam as futuras profissões. Então tá! Vamos ver se entendi. Meninas serão mães e os meninos serão motoristas. Brinquedo é brinquedo. Criança é criança. Não tem a maldade que existe na cabeça dos adultos. Começam a segregar na infância e querem juntar na idade adulta. Impossível. Educação vem de berço.
O machismo impera como regra em algumas famílias que impõem suas vontades aos filhos sem ouvir-lhes os sonhos. Certamente produzirão médicos sanguinários, políticos corruptos, professores despreparados, maridos grosseiros e agressivos e mulheres sempre submissas e sem vontade própria.
Precisamos rever nossos conceitos, não só de homem e mulher, mas de gente, de cidadão, de pessoa, de ser humano. Estamos banalizando a vida e temos colhido frutos amargos por causa disto.
Dizem que as palavras comovem, mas os exemplos arrastam. Talvez seja de bons exemplos que a nossa sociedade esteja precisando, uma vez que nossas instituições estão fadadas ao fracasso, exatamente por não serem sustentadas pela verdade, pelo respeito, pela dignidade e pelo amor acima de tudo.
Acredito na família e no poder transformador que ela tem. Nenhuma religião ou escola tem tanto poder de persuasão para transformar vidas e mudar conceitos. A família é onde tudo começa. E é onde tudo termina.
Vale a pena pensar nisso.

Fábio Gonçalves – Professor e escritor
fabioaguaboa@r7.com
binhogon@ig.com.br

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