segunda-feira , 18 junho 2018
Início > Colunistas > Profissão de fé

Profissão de fé

Eu tive tudo para não ser professor. Nasci com a alma um tanto alada e, ser professor me obriga a andar com os pés presos ao chão…

Meu pai decidiu, sem consultar-me, que eu seria carpinteiro ou motorista… Nunca disse que não. Apenas achei que jamais me satisfaria a limitação de uma carpintaria ou de um volante e uma estrada.

Resolvi talhar mentes, esculpir atitudes, envernizar corações, lustrar almas, montar futuros, indicar caminhos, apontar direções. De certa forma sou o que meu pai desejou: sou professor.

Sei que muitos de nossos meninos e meninas saem do alcance de nossas vistas sem o brilho ou a polidez necessários porque, muitas vezes, “lixas” e “verniz” estão em falta…

25 anos se passaram desde que resolvi fazer parte da vida destes meninos e meninas que a mim vieram com sede de saber. 25 anos que me mostraram a minha verdadeira importância e missão no mundo: ser luz.

Sou professor porque acredito na transformação do homem e do mundo. Muitos não acreditam em mim, eu sei. Isto é normal. Nem governos, nem famílias, talvez nem companheiros de profissão. Mas a mim não me importa o crédito alheio. O Mestre dos Mestres ainda hoje desperta interrogações e quase sempre é ignorado e nem por isso deixa de exercer um fascínio sobre a humanidade, mudando-lhe os rumos e as atitudes. Defendo o que penso sabendo que penso para o bem. Defendo minhas convicções não por achá-las melhor do que as de ninguém, mas por achá-las melhor do que a mim mesmo. Afinal, a cada dia preciso estar melhor.

Hoje é 17 de maio de 2010. Há exatamente 25 anos pisei pela primeira vez o chão vermelho de uma sala de aula com a curiosidade de uma criança e com a vontade de um idealista. Foram anos de batalhas até contra mim mesmo porque meus conceitos foram sendo transformados por experiências novas.

Sempre fui instigado a conhecer e a desvendar mistérios. Nunca, porém, consegui entender por que a minha profissão é encarada como “biscate” por uns tantos ou como “ bico” por outros.

Entre os desgovernos atuais, de total intransigência e desvalorização do magistério, fico a refletir sobre algumas posturas desses homens que também tiveram professores, mas parece que nunca aprenderam o real valor de quem ensina. Esses homens de memórias curtas nunca compreenderam que sem o professor, não se abrem caminhos, não se descortinam horizontes, não se chega a lugar algum.

Tudo na educação virou marketing pessoal. É uma verdadeira vitrine de merchandising. A publicidade dos “feitos” dos governos é assustadora. Deveriam ganhar prêmios aos montes nesta categoria. Deveriam levar o troféu “imprensa” da propaganda enganosa. Ninguém faz mais propaganda do que os governos, de suas políticas educacionais, ambientais e outros “ais”. E as escolas continuam sendo alvos de críticas infundadas, seus alunos, frutos forçados, e seus professores, cobaias do sistema.

Recebendo o pouco e irrisório salário, professores sem motivação e sem saída são obrigados a dobras de turnos e de esforços. Sobrecarregando-se cada vez mais com “experiências” que nem sempre dão certo.

A educação nunca prioriza a habilidade, mas escancara as suas portas e, pela mão-de-obra barata , paga mal aos seus servidores, porque professor não é artigo de luxo e se encontra em qualquer esquina.

Nunca se ouviu falar tanto em educação de qualidade. Nunca nossos alunos saíram tão despreparados de nossas escolas. Nunca nossos professores estiveram tão indignados com a sorte (ou azar!) de suas profissões.

Agora mesmo, em pleno maio, abriram-se precedentes para uma evolução da categoria. Servidores (escravos do sistema!) reivindicam apenas o legal e são escorraçados das praças, muitas vezes agredidos física e moralmente porque não aceitam a condição de servos diante de uma política que nada tem a ver com a vida e a realidade da classe.

O poder público, “deitado em berço esplêndido” tapa os ouvidos aos apelos de quem dá ao estado e ao país, índices (suadíssimos) de proficiência.

Apesar disso, sou professor e me orgulho de sê-lo. Tenho fé na possibilidade de um mundo melhor pela educação. Não posso me sentir desencorajado porque ao meu lado caminham homens e mulheres descrentes. Como homem, sou frágil, sujeito a reboque vez ou outra. Acredito na minha força enquanto educador porque acredito na força transformadora que o conhecimento traz ao homem.

O homem só pode ser educado por homens que foram também educados. Infelizmente nem todos tiveram essa sorte.

Fábio Gonçalves
Professor e escritor
binhogon@ig.com.br

Leia também

Aos meus sabiás, com amor…

A adolescência pode ser a melhor ou a pior parte da vida de um ser ...

Deixe uma resposta