terça-feira , 11 dezembro 2018
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Põe ré aí que dá!

A gente sempre imagina que igreja é lugar de coisa séria. Sermões, doutrinas, ensinamentos. E é. Mas é lá também que, pela seriedade excessiva e pela compostura que jamais deve estar abaixo do nível, acontecem fatos hilariantes que põem boca de riso em todo mundo.
Naquele dia, toda a provável seriedade da celebração foi por água abaixo. Não que tenha acontecido algo escabroso que merecesse páginas inteiras de jornais sensacionalistas. Mas foi tão surpreendente que ainda hoje, guardo metade de um riso mal rido, escondido em algum canto jocoso de mim.
Era sábado à noite. A igreja estava lotada. Gente pra tudo quanto é canto. Padre novo, cara nova, sermão novo. Só o povo, o mesmo de sempre. A família vinha toda para a missa. Uma fila sem fim de pais, mães, filhos, netos, bisnetos, criados e malcriados, espinicados pelos bancos e corredores do templo.
Os fiéis se acotovelavam. A igreja parecia uma lata de sardinha de tão pequena para tanto “peixe”. Os bancos ficaram poucos para tantos fiéis. O povo não podia ouvir falar de uma missa carismática, que ia, aos montes, buscar algo que fosse realmente sobrenatural, ou, no mínimo, real e necessário.
Meu violão tinia, cordas novinhas, afinadíssimo, preparado para acompanhar todas as vozes daquela que prometia ser “a celebração”. Estava literalmente pronto para o “o show”.
Padre Sérgio, sacerdote recém chegado à comunidade, redentorista e carismático, cara de anjo, olhos azuis, fala mansa, cheio de inovações eclesiásticas inicia o ritual, como de costume.
No meio da citada celebração, e, sem que eu soubesse de suas idéias mirabolantes, me orienta, ao pé do ouvido, para que eu “pegasse” a nota de uma canção improvisada que ele mesmo cantaria. Por mim, tudo bem. Era padre novo. Queria impressionar. Eu também queria. Entrei na onda.
Tentei uma. Nada. Duas, menos ainda. Eu não conseguia entrar no tom desejado pelo padre. Nota e voz pareciam o sol e a lua: nunca se encaixavam. Se eu subia o tom, o padre abaixava, se eu descia, o padre subia. As notas não se harmonizavam com a voz do padre. A voz do padre não se dava com as notas. Nada batia. Só meu coração acelerado, batia desordenado e desafinado.
Eu comecei a ficar nervoso. A assembléia não tirava o olho de mim. A expectativa daqueles devotos me rasgava pelo meio, não sei se de timidez ou de nervosismo. Meu coração descompassava acelerado, tenso, saindo pela boca. Batia e apanhava ao mesmo tempo, feito um tambor num terreiro.
A igreja derramava gente pelas escadarias. O Violão completamente fora do tom. O padre entusiasmado. O tocador nervoso, pagando mico, suando frio. E o padre lá, insistindo: fá sustenido, sol maior, mi com sétima, si bemol e aquele monte de códigos musicais que só faziam ferver a minha cabeça. Se tivesse uma nota que mandasse “cair fora”, eu não hesitaria. Picava a mula, como diz o ditado popular.
Eu já estava desistindo. Meus dedos deslizavam sobre os traços e as cordas do violão na rapidez dos comandos do padre. E o padre lá, me sacrificando, me torturando, me expondo quase ao ridículo diante de uma assembléia, ávida por um “milagre”, não sabia se de Deus ou de mim.
Os santos, todos quietinhos nos nichos, não tiravam os olhos dos meus, esperando uma atitude. Aquele monte de santo me olhando e eu lá padecendo sob Pôncio Pilatos.
Qual não foi a minha surpresa, a nossa surpresa, a grata surpresa, a surpresa mais surpreendente que eu já vi em toda a minha vida, quando um homem alto, magro, barbudo, conhecido na cidade, caindo de bêbado, completamente “chapado”, gritou lá do último banco da igreja, em alto e bom tom:
_ Põe ré aí que dá!
Surpresa geral. Estava feito o milagre! O riso eclodiu no recinto sagrado. Cochichos e mais cochichos se misturavam. Olhos arregalados buscavam explicações. Vi, de longe, enormes interrogações nas cabeças dos fiéis. Todos queriam saber donde viera aquela orientação tão divina e tão surpreendente.
Não tinha nada mais a fazer senão obedecer às ordens daquele inesperado, ébrio e insistente maestro.
Pus ré e deu.
A nota caiu feito uma luva na complicada melodia do notável presbítero. O padre sorriu feliz. Venceu-me pelo cansaço. Eu sorria, meio de lado e o povo não entendia nada. Eu, menos ainda.
Foi a primeira vez na minha vida que um bêbado, diante de uma sóbria platéia, me regeu, em ré maior, na minha simplória e solitária orquestra de voz e violão.

Extraído de “CONTOS DE FÁBIO”
Fábio Gonçalves
Escritor e poeta
http://artesdefabio.blogspot.com

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