segunda-feira , 18 junho 2018
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Erro de Português?

Dizem que errar é humano, mas persistir no erro é burrice. Outros dizem melhor: errar é humano, mas ajudar a quem erra é mais humano ainda. Concordo e assino abaixo. Ninguém erra com a simples intenção de errar. Cada erro é uma tentativa de acerto.
Nos meios acadêmicos falam-se muito em erros de Português. Ando meio cansado de ouvir esta frase entediante, repetidas vezes, principalmente na área da educação, quando os resultados das avaliações sistêmicas e processuais das escolas públicas não estão de acordo com os nossos anseios coletivos.
Não devemos, é claro, nos contentar com resultados baixos, desempenhos insatisfatórios e nível de proficiência abaixo do esperado. Tais resultados não condizem com os nossos esforços sobre-humanos para alavancar a educação deste país.
Durante anos fomos rechaçados como vilões e protagonistas da má qualidade do ensino da língua padrão, uma vez que nossos alunos escreviam e ainda escrevem com deficiências ortográficas, erros de concordância, problemas de ordem estrutural e temática, coesão, coerência e uma infinidade de “erros” quase inumeráveis. Resumindo: nossos alunos não sabem ler e nem escrever.
A mim me pareceu que, durante muito tempo, os professores das outras disciplinas não se preocuparam em desenvolver coletivamente o hábito da leitura em seus alunos e cobraram deles, por anos a fio, o entendimento do conteúdo que ministravam, sem sucesso de compreensão e de produção. O sistema,por sua vez, ainda falho, não dera à escola como um todo, a responsabilidade coletiva de ensinar a ler e a escrever. A exclusividade do processo de leitura e de produção escrita foi um pesado e angustiante fardo carregado pelos professores de língua portuguesa durante muito tempo como se estes detivessem todo o poder de promover no cidadão a habilidade de interpretação de uma gama de gêneros textuais que nos são apresentados ano a ano.
Sem leitura, nada poderá ser feito. Nem ontem, nem hoje, nem em momento algum. Nem aqui nem lá na China. Professores que não lêem também “viram o barco”. E há uma quantidade exorbitante deles por aí. Quantos livros lêem por ano? Será que conhecem os gêneros textuais? Lêem jornal ou revista ao menos pela curiosidade de saber o que está acontecendo? Sabem qual a finalidade de um texto?
Leituras superficiais não libertam o homem de sua ignorância. Leitura é como o mergulho em um rio. É necessário conhecer as margens, origens, desembocadura e leito para depois conhecer sua profundidade e aí, finalmente dar um mergulho. Daí se conhece seu real objetivo e sua aplicabilidade.
Mas a culpa dessa incompreensão sempre recaiu sobre os protagonistas do ensino da língua portuguesa, o que não é justo e nem coerente.
Ensino Língua Portuguesa a um bom tempo e desejo que meus alunos falem , escrevam, ouçam e produzam melhor dentro das finalidades da produção escrita ou falada. Para isso, dedico-me inteiramente e, quase por instinto, a uma tentativa quase robótica para possibilitar-lhes uma leitura crítica, capaz de fazê-los compreender, além das intenções do texto, as propostas daquele gênero.
Fala-se muito em erros de Português. Troca do x pelo ch, troca da cedilha por dois esses, não-utilização do plural e uma infinidade deles. E os erros de Ciências, de Matemática, de História, de Geografia, de Educação Religiosa, de Educação Física? Não existem erros nestas disciplinas? Por que, afinal, só a sofrida e vilipendiada Língua Portuguesa deve sofrer pela omissão das outras?
Um aluno apreendeu, na escola, que não deveria poluir os rios ou as praças ou até mesmo a sua própria sala de aula. A aula termina e, ao final, esta mesma sala está repleta de papéis de bala, pauzinhos de pirulito, saquinhos vazios de pipoca e outros elementos poluentes. Erros de quê? Não vão dizer-me outra vez que é erro de Português!
Alguns alunos não têm postura ao sentar-se em suas carteiras. Com certeza, futuramente terão problemas de coluna. Será que aprenderam que a postura também faz parte do processo educativo? Educação Física é para a vida, como qualquer outra disciplina.
Picharam a parece da escola, grafitaram o busto de uma autoridade, quebraram lâmpadas da praça. Isto é o quê? Erro de Português? Isto também se aprende na escola!
No Brasil, apropriar-se indevidamente do dinheiro público, sonegando impostos, desviando verbas, desfalcando empresas não são somente erros matemáticos, mas , principalmente erros de conduta, erros de brasileiro e não erros de português.
Considero erro a ausência de aprendizagem. Quem não aprende a preservar o meio ambiente, comete um erro de Ciências, Matemática, Biologia, Educação Religiosa, Geografia e até de História!
Na escola, o vício do erro de português, eximiu a todos de seus “erros” que são tão gritantes como não saber escrever corretamente. Não agir corretamente com o semelhante pode ser um erro de Educação Religiosa; subtrair objetos alheios ou cobrar valores indevidos por algo, são erros de Matemática; sujar o espaço público ou educativo são erros de Ciências; falar alto e enganar as pessoas são erros de cidadania…
Há erro onde não há assimilação de conteúdo e, consequentemente, não haverá mudança de hábito.
Cada erro deve ter o seu destino.
Se todos se responsabilizarem por tudo, os erros, certamente, serão de todos. Ou os acertos, quem, sabe?

Fábio Gonçalves
Professor de Língua Portuguesa
Escritor e poeta
binhogon@ig.com.br

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