quarta-feira , 26 setembro 2018
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A vida por um fio

Pleno feriado. Dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida. Dois momentos importantes para reflexão. Dia de estar com os filhos, de ser criança, de prestar atenção na vida que emerge de cada sorriso infantil. Dia de pedir proteção à padroeira, paz para o país e para as famílias. Dia de estar com os amigos também, de rever pessoas, de contar histórias.
Essa aparente tranqüilidade, típica de uma cidadezinha do interior, foi quebrada violentamente por uma tragédia que vitimou dois jovens, cheios de vida, sonhos e ideais.
Fomos obrigados, pela solidariedade humana, a trocar o riso pelas lágrimas, alegria pelo choro, o descanso pela tristeza, vendo um jovem pai de família, entre as ferragens de um carro destroçado, a poucos quilômetros de casa. Junto deste, outro jovem, que nos deixou com “olhos d’água”, personagem da mesma dor.
Fomos obrigados, pela amizade, a tentar entender porque tamanha dor, de forma tão inesperada. Movidos pela comoção coletiva, não soubemos o que dizer a uma mãe desolada, duplamente machucada, feito Maria aos pés da cruz, vendo, sem culpa e sem ação, o filho morto.
Antigamente, morria-se de velhice, de experiências acumuladas ao longo de toda uma vida. Jovem quando morria causava uma desolação total. Hoje, a estupidez é a maior causa-mortis entre os jovens do nosso país.
Os jovens estão morrendo, senhores. Suas vidas estão sendo ceifadas antes do tempo. Estão bebendo e dirigindo. Dirigindo e morrendo. Morrendo e matando.
Bebida e volante não fazem e nunca fizeram uma boa parceria. Já estamos carecas de saber disso. A mídia nos relembra isso a todo momento com depoimentos reais de pessoas que passaram pela dura experiência da perda. Mas há um machismo desmedido que está deixando órfãos e viúvas, mães desalentadas e pais à beira de um colapso. Os homens, em geral, não aceitam que são mortais, que são frágeis, que podem se sucumbir. São dominados pelo vício e não se dão conta da crueldade com que se matam e com que destroem seus sonhos e os dos outros.
Com os reflexos desfocados pela ingestão de bebidas alcoólicas em excesso, a visão, a audição e todos os outros sentidos (até a noção do perigo) ficam totalmente comprometidos. Acham que são super-heróis, que podem tudo, que nunca morrem e que nada poderá lhes deter. Esquecem de suas mães, de suas esposas, filhos e amigos. São super-homens que não tem medo, não tem receio, não tem amor à vida e fazem dela um ringue, um brinquedo, completamente sem controle, uma brincadeira de mau gosto que nunca acaba bem.
As mulheres, por mais que ainda sofram preconceito por serem mulheres e motoristas não elevam as estatísticas de mortes no trânsito. São mais prudentes e não precisam provar nada. Os homens ainda acham que são imbatíveis.
Falta educação? Claro. Falta educação e prudência, temor e respeito. Falta tudo, principalmente amor à própria vida. Acho, como educador, que, nas escolas deveria haver uma disciplina específica sobre educação para o trânsito para que as nossas crianças aprendam a respeitar as leis e não cometam, no futuro, os absurdos que seus pais cometem hoje.
A BR 365, que liga Montes Claros a Pirapora, possui um fluxo de veículos muito intenso. Vivemos num terrível sobressalto quando temos que tomá-la para irmos de Água Boa a Montes Claros. São carretas que sobem e descem numa intensidade e velocidade tamanha que o coração fica na garganta de tanto temor e apreensão. Não sabemos o que poderá acontecer neste raio de cinquenta quilômetros. Perdemos a conta de quantos perdemos.
A cautela e a prudência deveriam andar de mãos dadas e, nas rodovias, esse cuidado deveria ser redobrado.
A tragédia que levou à morte, dois de nossos amigos, e que, por pouco não levou um terceiro, precisa ser o foco de nossas reflexões.
As campanhas de educação no trânsito cobram, cotidianamente, uma postura dos motoristas: se beber, não dirija. Por que é que esta atitude nunca é assimilada e vivenciada pela maioria deles? Por que é que ainda temos de chorar nossos mortos depois que a desgraça se instala?
Água Boa sentiu na alma uma dor duplamente sangrenta. Toda a população se sentiu também machucada e ferida. O povo se voltou para este fato que, lamentavelmente, tirou o nosso sono. Em todo o país, fatos como este enchem de sangue as manchetes dos jornais e os noticiários.
Dizem alguns: Deus quis assim. Deus tem culpa? Deus não quer desrespeito ao volante. Deus não deseja a morte de ninguém. Deus não quer famílias destruídas pela insensatez de alguns motoristas. Deus quer a vida e a vida não pode e jamais deve ser tão banalizada.
A família está de luto. Os amigos estão de luto. Todos se sentiram impotentes diante desse fato que deixou perplexo todo um povo.
Há perguntas ainda sem respostas que só o tempo dirá.
Água Boa é um lugar muito pequeno para viver tragédias dessa natureza. Não temos estrutura para isso. Somos muito próximos uns dos outros e todos nós sofremos porque a dor, como a alegria, também nos irmana.
Que haja cautela e, mais uma vez, me unirei à voz de todos os que defendem a vida: SE BEBER, NÃO DIRIJA.

Fábio Gonçalves
Escritor e poeta

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